O mercado global de carne bovina está passando por mudanças profundas que vão além de simples números de produção e exportação: trata-se de uma reconfiguração da oferta mundial influenciada por fatores econômicos, políticos e estruturais nos principais países produtores. Em resumo, 2026 se apresenta como um ano em que a geopolítica da carne bovina vai refletir tanto ajustes internos de produção quanto pressões externas de mercado. Desse modo, Brasil, Estados Unidos e Austrália, cada um com seus desafios e vantagens competitivas, devem atuar como vetores que moldam a oferta global, influenciando preço, acesso a mercados e estratégias de exportação no setor da proteína animal.
No Brasil, a expectativa é de que 2026 represente uma espécie de virada de ciclo para a pecuária. Depois de anos de oferta elevada que pressionaram preços domésticos, há indícios de que o abate de fêmeas deve recuar e a retenção de matrizes para a formação de bezerros ganhar força, o que, ao longo do tempo, tende a reduzir o volume de animais disponíveis para abate imediato. Esse movimento, ainda que moderado, pode representar um ajuste na produção e, ao mesmo tempo, fortalecer a base de rebanho para safras futuras. Paralelamente, a demanda interna brasileira segue firme, alimentada por um mercado consumidor amplo e pela busca por produtos de maior valor agregado.
Nos Estados Unidos, a situação é bastante distinta, uma vez que o país enfrenta limitações em sua oferta interna de carne bovina, em parte por conta de um rebanho que tem se mantido mais restrito e de custos de produção elevados. Essa redução relativa da produção doméstica, somada a dificuldades logísticas e pressões inflacionárias, tem levado os EUA a depender mais de carne importada para atender parte da demanda de processamento e consumo. Mesmo assim, barreiras comerciais, como tarifas e cotas de importação, e a forte produção local colocam uma espécie de tensão sobre o equilíbrio entre oferta e procura no mercado norte-americano.
Já na Austrália, o foco está no desempenho sólido e na especialização em nichos de mercado, como cortes premium para a Ásia. O país oceânico continua competitivo em segmentos onde carnes com características específicas, como carne alimentada a pasto com certificações de qualidade, têm forte aceitação, especialmente em países de renda per capita mais alta. Esse posicionamento ajuda a manter a Austrália relevante em fluxos comerciais que não são diretamente concorridos pelos grandes volumes brasileiros, mas que agregam valor às exportações de proteína animal.
Em suma, esse novo equilíbrio entre três grandes players têm implicações importantes para todo o agro global. Se, por um lado, a possível retração relativa na produção americana deve abrir espaço para importações e, por outro, o papel da Austrália nos mercados premium mantém uma dinâmica de especialização, o Brasil, com sua escala e flexibilidade de mercados, aparece como peça central tanto em volumes quanto em diversificação de destinos. Países asiáticos, por exemplo, continuam sendo grandes importadores e impulsionadores do comércio global de carne bovina, reforçando a expectativa de abertura do mercado japonês à carne bovina brasileira já em 2026.
Fonte:
AGRO ESTADÃO. Geopolítica da carne bovina: como Brasil, EUA e Austrália vão ditar a oferta global? 2025. Disponível em: <https://agro.estadao.com.br/pecuaria/geopolitica-da-carne-bovina-como-brasil-eua-e-australia-vao-ditar-a-oferta-global>.
O Congresso Nacional aprovou o Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) para 2026, que define quanto o Governo Federal poderá gastar no próximo ano com suas diversas políticas públicas e programas. Essa lei é fundamental para o planejamento de ministérios e setores, incluindo o agronegócio, que historicamente recebe atenção especial devido à sua importância para a economia brasileira.
Uma das principais novidades para o agro está no Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), que é o principal instrumento de apoio financeiro para que produtores contratem seguro contra perdas por eventos climáticos, pragas ou oscilações de preço. O texto aprovado destina cerca de R$ 1,017 bilhão para o PSR em 2026, valor que, apesar de ainda significativo, é aproximadamente 4% menor do que o orçamento inicial de 2025, o que gera uma cautela entre produtores e gestores rurais sobre a execução plena desses recursos ao longo do ano.
A redução em comparação ao orçamento do ano anterior acende um alerta: os recursos previstos podem não ser suficientes para ampliar a cobertura ou a área segurada, principalmente em um cenário em que o seguro rural vem enfrentando desafios ligados à baixa adesão e à volatilidade climática. Analistas do mercado de seguros projetam que, mesmo que a arrecadação e a área segurada possam crescer em 2026, esses avanços ainda dependem de maior participação de produtores e de ajustes no modelo de subvenção para torná-lo mais acessível e sustentável.
Além do seguro rural, o Orçamento de 2026 consolidou a manutenção de políticas estratégicas como o seguro-safra, além de instrumentos de crédito atrelados às LCAs, que ajudam a reduzir o custo de financiamento para o agro. A preservação desses mecanismos é considerada uma vitória por lideranças do setor, já que contribui para a estabilidade do planejamento financeiro dos produtores.
Fonte:
AGRO ESTADÃO. Congresso aprova Orçamento de 2026; veja os recursos para o Seguro Rural e o agro. 2025. Disponível em: <https://agro.estadao.com.br/agropolitica/congresso-aprova-orcamento-de-2026-veja-os-recursos-para-o-seguro-rural-e-o-agro>.
Desde o início de dezembro, as precipitações que atingiram grande parte das regiões agrícolas do país trouxeram um alívio bem-vindo para o setor produtivo. De acordo com o último boletim da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), os volumes de chuva observados entre os dias 1º e 15 de dezembro contribuíram de forma significativa para aumentar a umidade do solo, favorecendo tanto a semeadura quanto o desenvolvimento inicial das lavouras de primeira safra.
Essa dinâmica climática foi especialmente benéfica em áreas do Centro-Oeste, onde, por exemplo, as precipitações ajudaram a recompor a umidade do solo em regiões como o nordeste de Mato Grosso e o norte de Goiás, pontos estratégicos para a produção de grãos. Situações parecidas ocorreram no Sudeste, com chuvas regulares apoiando o vigor das plantas nos estágios iniciais de crescimento.
No Sul do Brasil, as chuvas se distribuíram de forma mais irregular. Os primeiros dias de dezembro foram relativamente secos no Rio Grande do Sul, o que foi positivo para a conclusão da colheita das culturas de inverno. Já entre os dias 6 e 10, precipitações mais consistentes melhoraram a umidade em diversas áreas, fortalecendo o solo para a semeadura e avanços das lavouras de verão.
Nas regiões Norte e Nordeste, a chuva também teve papel favorável em partes do Tocantins e no sul e noroeste do Pará, beneficiando a etapa inicial de estabelecimento das culturas. Em áreas do Matopiba, importante fronteira agrícola que abrange partes do Maranhão, Piauí, Bahia e Tocantins, a umidade adicional ajudou a consolidar o quadro de desenvolvimento das lavouras de primeira safra, ainda que em algumas áreas a distribuição tenha sido insuficiente para atender toda a demanda.
Fonte:
AGRO ESTADÃO. Conab: volume de chuvas na 1ª quinzena de dezembro beneficiou as lavouras. 2025. Disponível em: <https://agro.estadao.com.br/agricultura/conab-volume-de-chuvas-na-1a-quinzena-de-dezembro-beneficiou-as-lavouras>.
CULTIVAR. Chuvas favorecem lavouras de primeira safra em dezembro. 2025. Disponível em: <https://revistacultivar.com.br/noticias/chuvas-favorecem-lavouras-de-primeira-safra-em-dezembro?>.
Fonte: Syngenta
A ferrugem asiática, uma das doenças mais temidas da soja, ganhou destaque nas últimas semanas ao ser registrada em 51 ocorrências em território nacional, com diversos focos confirmados em estados produtores importantes. O levantamento feito pelo Consórcio Antiferrugem mostra que a doença, causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi, não está mais isolada em poucas áreas, mas já se manifestou em vários pontos do Paraná, principal polo de soja do país, com 40 ocorrências, além de registros em Mato Grosso do Sul, São Paulo, Rio Grande do Sul e Santa Catarina.
O problema da ferrugem asiática é sua velocidade de evolução e a forma como se aproveita de condições climáticas favoráveis (temperaturas moderadas e umidade elevada) para se espalhar rapidamente pelas lavouras. Entender o ciclo da doença ajuda a explicar por que ela avança com tanta rapidez: o fungo depende de tecido vivo da planta hospedeira para sobreviver e pode manter seu inóculo em plantas tigueras e outras espécies durante o vazio sanitário. Quando as condições climáticas favorecem a germinação e o molhamento das folhas, mesmo sem chuva, a infecção pode se intensificar em poucos dias
Entre as preocupações dos técnicos está o fato de que as perdas de produtividade podem ser severas se a doença não for controlada de maneira eficiente. Em situações desfavoráveis, com infecção estabelecida e manejo inadequado, estimativas indicam que a ferrugem pode reduzir a produção em até 70%, dependendo do estágio da planta e da intensidade do ataque. O sintoma clássico, a desfolha precoce, compromete a capacidade da planta de preencher os grãos, o que pesa diretamente no rendimento final da safra.
Respeitar o vazio sanitário, eliminar plantas voluntárias e hospedeiras alternativas fora da janela permitida e iniciar o programa de fungicidas preventivamente são medidas essenciais para reduzir a pressão da doença. Uma vez que a ferrugem se instala, a eficácia de muitas moléculas fisiológicas tende a cair, o que torna o manejo prévio com produtos adequados e a rotação de modos de ação ainda mais importante.
Fonte:
CANAL RURAL. Ferrugem asiática da soja chega a 51 ocorrências no Brasil; Fundação MS alerta para perdas de até 70%. 2025. Disponível em: <https://www.canalrural.com.br/agricultura/projeto-soja-brasil/ferrugem-asiatica-da-soja-chega-a-51-ocorrencias-fundacao-ms-alerta-para-perdas-que-chegam-a-70/.>
APROSOJA. Safra 25/26: primeiro foco de ferrugem asiática em área comercial é confirmado em MS. 2025. Disponível em: <https://www.aprosojams.org.br/blog/safra-2526-primeiro-foco-de-ferrugem-asi%C3%A1tica-em-%C3%A1rea-comercial-%C3%A9-confirmado-em-ms>.
O agro brasileiro vive um momento econômico positivo no fim de 2025, favorecido pelas cadeias produtivas de soja e biodiesel, cujos números continuam mostrando sua relevância para o PIB, exportações e geração de empregos no país. Estudos recentes realizados pelo Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), em parceria com a Abiove (Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais), apontam que a expectativa de crescimento do PIB dessa cadeia foi revisada para cima mais uma vez após o terceiro trimestre do ano.
Essa nova estimativa decorre principalmente do forte desempenho da agroindústria no terceiro trimestre, especialmente no segmento de esmagamento da soja e na produção de biodiesel. O avanço no processamento do grão, somado à introdução de misturas mais altas de biodiesel nos combustíveis, tem ampliado a participação do setor industrial nas contas finais do PIB. Como resultado desse cenário, a projeção indica que o PIB da cadeia da soja e do biodiesel pode crescer cerca de 11,66% ao longo de 2025 e pode corresponder a aproximadamente 23% do PIB total do agronegócio e 5,7% do PIB nacional no ano.
Apesar desse avanço, o estudo também mostra alguns pontos de atenção. A pressão sobre os preços relativos no terceiro trimestre levou a um recuo nas cotações aplicadas ao longo do ano, o que reduziu o ganho de renda da cadeia em 2025, embora os volumes produzidos e processados continuem sustentando o crescimento econômico. Essa dinâmica é influenciada tanto pelas ofertas recordes de soja quanto pelas condições de mercado internacional. Além disso, o mercado de trabalho na cadeia da soja e do biodiesel também segue resiliente, com aumento no número de empregos no setor produtivo, especialmente em atividades relacionadas à produção de insumos e serviços que suportam a cadeia como um todo.
Fonte:
CEPEA. Cepea/Abiove: Avanço da agroindústria gera nova revisão positiva no PIB da cadeia da soja e do biodiesel no 3º tri. 2025. Disponível em: <https://www.cepea.org.br/br/releases/cepea-abiove-avanco-da-agroindustria-gera-nova-revisao-positiva-no-pib-da-cadeia-da-soja-e-do-biodiesel-no-3-tri.aspx>.
O Cepea apresentou na última semana um relatório inédito com uma análise detalhada da pecuária brasileira e suas perspectivas para o período de 2025 a 2026. O estudo aponta um cenário de maior cautela no curto prazo, marcado por custos ainda elevados, crédito restrito e consumo interno sensível aos preços. Por outro lado, o mercado externo segue como ponto de apoio, especialmente para a carne bovina, enquanto a eficiência produtiva e gestão de custos ganham ainda mais importância para dentro da porteira.
No curto prazo, o estudo indica um ambiente de maior pressão sobre as margens, influenciado pelo nível elevado das taxas de juros, custos de produção ainda relevantes e um consumo doméstico que reage com sensibilidade às variações de preço. Esse cenário reforça a necessidade de controle financeiro rigoroso e decisões mais criteriosas sobre investimentos e expansões.
Em contrapartida, o mercado internacional segue como um dos principais vetores de sustentação do setor, especialmente para a carne bovina. A demanda externa, aliada à posição do Brasil como grande fornecedor global de proteína animal, ajuda a compensar parte das limitações do mercado interno.
O relatório também destaca que ganhos de produtividade, uso de tecnologias, planejamento e gestão profissional da propriedade serão determinantes para a competitividade nos próximos anos. Mais do que aumentar a produção, a pecuária brasileira precisará produzir melhor, com foco em eficiência econômica e adaptação às exigências de mercado.
Fonte:
CEPEA. Pecuária/Cepea: Cepea apresenta relatório inédito com Panorama Pecuário 2025/2026. 2025. Disponível em: <https://www.cepea.org.br/br/releases/pecuaria-cepea-cepea-apresenta-relatorio-inedito-com-panorama-pecuario-2025-2026.aspx>.