Março, 2026
A escalada das tensões entre os Estados Unidos e o Irã atingiu um ponto crítico no começo de 2026, resultando em um confronto militar direto que remodelou a geopolítica do Oriente Médio. O estopim da atual crise é o impasse sobre o programa nuclear iraniano, após o fracasso das negociações mediadas pelo Omã (país da Península Arábica). A administração norte-americana justificou o ataque como uma medida preventiva necessária para impedir que Teerã, capital do Irã, atingisse o nível de enriquecimento de urânio suficiente para a produção de bombas nucleares (G1, 2026).
O conflito cresceu rapidamente com a execução da “Operação Fúria Épica”, uma sequência de ataques aéreos programados entre Estados Unidos e Israel iniciada em 28 de fevereiro. Os bombardeios atingiram pontos estratégicos em Teerã e outras províncias, resultando na destruição de complexos governamentais e na morte de figuras relevantes do regime. Essa ação militar representa uma mudança radical na estratégia ocidental, deslocando-se da tradicional política de sanções para uma tentativa clara de mudança de regime.
Em resposta, o Irã lançou mísseis contra bases norte-americanas e cidades em Israel, além de mobilizar grupos aliados, como o Hezbollah, e anunciar o fechamento parcial do Estreito de Ormuz, uma via essencial para a economia, visto que, de acordo com a BBC NEWS (2026), por ele transita 20% do petróleo mundial. Tal interrupção já provoca um aumento no preço dos combustíveis e instabilidade nos mercados financeiros internacionais, ocasionando um estado de alerta global.
Historicamente, a rivalidade entre as duas nações é profunda e remete à Revolução Islâmica de 1979, quando o Irã deixou de ser um aliado estratégico dos Estados Unidos para se tornar um adversário teocrático. Desde então, a relação tem sido marcada por sanções e hostilidades indiretas. No entanto, o cenário de 2026 é considerado sem precedentes devido à intensidade dos ataques e à convergência de objetivos militares entre Washington e Israel, o que ampliou a disputa para uma guerra estrutural de longo prazo.
As consequências desse confronto envolvem de forma direta ou indireta mais de uma dezena de países no Golfo Pérsico. Enquanto a diplomacia tenta evitar um conflito mundial, a população do Irã lida com o caos e apagões de internet. A comunidade internacional observa com cautela as medidas contraditórias vindas dos Estados Unidos, onde os políticos se dividem sobre o apoio à ofensiva (G1, 2026).
Fonte: G1.
Até o momento, o conflito se encontra em fase de incertezas, com o Irã mantendo sua estrutura de segurança resiliente e sinalizando que não se renderá rapidamente. A continuidade dos bombardeios indica que o mundo pode enfrentar um período estendido de instabilidade geopolítica. O desfecho dessa guerra depende agora da capacidade de mediação de potências externas e da evolução das tensões internas entre ambos os governos envolvidos diretamente no embate (BBC NEWS, 2026).
Nesse contexto de tensão política crescente é importante compreender o potencial de impacto que os eventos recentes representam especialmente para o agronegócio e para a cadeia global de alimentos. O professor Nima Shokri, da United Nations University, afirma que o principal ponto a se preocupar está relacionado à oferta de fertilizantes. O Golfo Pérsico abriga as fontes de gás natural (matéria-prima para fertilizantes nitrogenados), mais baratas do mundo, por conta disso, cerca de 30% da ureia comercializada mundialmente passa pelo estreito de Ormuz.
Fonte: Globo Rural.
Dessa forma, a paralisação do estreito já está causando um choque de oferta e aumento do preço dos fertilizantes no curto prazo, afirma Francisco Vieira, diretor da consultoria Agroconsult. Essa restrição do suprimento de fertilizantes gera um risco particularmente grande para o agro brasileiro, considerando que em 2025, 100% da ureia utilizada para fertilização no país foi fruto de importação, com cerca de 41% desse montante passando por Ormuz (AGRINVEST, 2026).
O “timing” do conflito também surge como um agravante para o cenário brasileiro, visto que o período de março a maio representa o momento em que os produtores realizam o planejamento e a compra dos fertilizantes para o resto do ano. Outro fator relevante é a dificuldade de superar a dependência da importação da ureia, visto que levariam anos e muito investimento para o desenvolvimento de instalações capazes de realizar a produção da ureia localmente.
Dessa forma, segundo o CONAB (2022), os efeitos causados por essa crise nos fertilizantes deverão ser sentidos mais tardiamente do que o aumento no petróleo em si, podendo afetar a safra 2026/2027, principalmente considerando que os fertilizantes nitrogenados correspondem a cerca de 30% a 40% do custo na produção de grãos .
Além disso, o Golfo Pérsico se trata de um destino importante para as exportações brasileiras, com 22% do milho brasileiro tendo o Irã como destino em 2025. Outros produtos que o Brasil exporta em sua pauta para a região incluem: açúcares e melaços (17,4%), carnes de aves (14,5%), carne bovina ,(8%), farelo de soja (4,3%) e soja em grão (2,3%) (MAIS AGRO, 2026).
Portanto, a escala multifacetada desse conflito demonstra como as ações de todos os lados impactam na economia globalizada em larga escala no curto, médio e potencialmente até no longo prazo considerando um cenário de tensão prolongada. Essa análise de riscos no atual cenário geopolítico da cadeia de alimentos é um exercício extremamente necessário por parte tanto das entidades governamentais quanto dos produtores, que devem levar em conta esses fatores para uma tomada de decisão que priorize minimizar os efeitos da crise para o setor agrícola.
BBC NEWS BRASIL. As razões que explicam por que os EUA atacaram o Irã. Londres: BBC, 2026. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/articles/ce3gk1kd33zo>. Acesso em: 8 mar. 2026.
COHEN, Sandra. Guerra com Irã terá efeitos drásticos no Oriente Médio, apesar de mensagens contraditórias dos EUA. Rio de Janeiro, RJ: G1, 06 mar. 2026. Disponível em: <https://g1.globo.com/mundo/blog/sandra-cohen/post/2026/03/06/guerra-ira-efeitos-drasticos-oriente-medio-mensagens-contraditorias-eua.ghtml>. Acesso em: 8 mar. 2026.
GUIA DO ESTUDANTE. Entenda o motivo da guerra entre EUA e Irã. São Paulo, SP: Abril, 2026. Disponível em: <https://guiadoestudante.abril.com.br/atualidades/entenda-o-motivo-da-guerra-entre-eua-e-ira/>. Acesso em: 8 mar. 2026.
LANJONI, L. Guerra no Oriente Médio: qual o impacto no agronegócio? - Portal Mais Agro. Disponível em: <https://maisagro.syngenta.com.br/mercado-e-safra/guerra-oriente-medio-agronegocio/>. Acesso em: 8 mar. 2026.
NIMA SHOKRI. How the Iran war could create a ‘fertiliser shock’ – an often ignored global risk to food prices and farming. The Conversation, 2026. Disponível em: <https://theconversation.com/how-the-iran-war-could-create-a-fertiliser-shock-an-often-ignored-global-risk-to-food-prices-and-farming-277552>. Acesso em: 8 mar. 2026.
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