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Banco Master, do colapso financeiro ao crime ambiental: o greenwashing no Agronegócio

Janeiro, 2026

No dia 18 de novembro de 2025, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master e de empresas ligadas ao seu grupo, após a instauração da Operação Compliance Zero. Essa investigação identificou irregularidades e uma grave crise de liquidez da organização, com a emissão de títulos de crédito fictícios e carteiras de crédito inexistentes. “A estratégia do Master foi marcada por um crescimento vertiginoso baseado na emissão de CDBs com retornos muito atípicos, como 120%, 140% e até 160% do CDI” (BBC NEWS, 2025).

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Fonte: Estratégia Carreira Jurídica.

A quebra resultou na prisão do presidente da instituição, Daniel Vorcaro, na paralisação imediata de todas as operações e no bloqueio de todos os ativos do grupo. Estimava-se que aproximadamente 12 milhões de clientes e 515 funcionários fossem diretamente afetados pela falência (AGÊNCIA BRASIL, 2025).

As atualizações mais recentes do caso mostram que a crise é ainda mais profunda do que se imaginava: o Banco Master chegou ao momento da liquidação com apenas R$ 4 milhões em caixa, um valor irrisório para uma instituição de seu porte e insuficiente para cobrir operações básicas. Somado a isso, o Banco Central também decretou a liquidação do Will Bank (Will Financeira), devido à sua insolvência e ao vínculo direto de controle com o grupo Master (CNN BRASIL, 2026).

Em termos gerais, a quebra do Banco Master é a maior da história do país em termos de impacto para o FGC (Fundo Garantidor de Créditos), instituição privada, sem fins lucrativos e que atua como uma espécie de seguradora para investimentos, garantindo cobertura de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, por instituição financeira. O ressarcimento dos depósitos bancários podem chegar a R$ 41 bilhões, cerca de um terço do caixa total do FGC (BBC NEWS, 2025).

Dessa forma, a falência do Banco Master pode atingir não apenas seus clientes, mas uma ampla gama de investidores do país. Isso se deve ao fato de que as instituições financeiras e principais bancos do país associados/contribuintes ao FGC aplicam uma pequena taxa sobre o retorno dos investimentos cobertos pelo fundo. Em suma, os bancos repassam a taxa destinada ao FGC para os investidores, que recebem um retorno menor por suas aplicações.

Nesse sentido, o impacto financeiro expandiu-se para outras esferas, com perdas estimadas em até R$ 5 bilhões para o Banco de Brasília (BRB) em operações ligadas à instituição. Enquanto isso, as investigações da Polícia Federal, como a Operação Compliance Zero, continuam a revelar manipulações contábeis e a utilização de empresas de fachada para inflar artificialmente o patrimônio do grupo.

Em paralelo, um dos pontos mais críticos para o setor agropecuário foi o envolvimento do grupo em projetos irregulares de créditos de carbono, em um caso emblemático de greenwashing. Esta estratégia enganosa é usada por empresas com discursos ilusórios sobre benefício ecológico, promovendo uma agenda ambiental sem cumprir os critérios reais de sustentabilidade (BRASIL, 2025).

O Banco Master utilizou uma área de 140 mil hectares no Amazonas, a "Fazenda Amazônica", para fabricar cerca de R$ 45 bilhões em ativos ambientais fictícios.  Ocorre que a área é, na verdade, terra pública da União destinada a assentamentos, o que levou o Incra a vetar o projeto por ilegalidade fundiária.

“O caso abriu uma fratura na confiança institucional no mercado de carbono brasileiro e colocou sob os holofotes os mecanismos de fiscalização e a capacidade do Estado de dar lastro a ativos ambientais. O mercado ainda aguarda uma resposta robusta do governo federal e dos órgãos reguladores.” (GAZETA DO POVO, 2026).

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Para o setor agropecuário, o qual apresenta forte dependência de crédito para custeio, investimentos e ciclos produtivos, o colapso de um banco como o Master é particularmente preocupante. Primeiro, porque muitos produtores, cooperativas ou empresas rurais podem ter mantido aplicações ou recursos de financiamento vinculados a essa instituição. Ademais, o episódio evidencia que taxas muito altas oferecidas por bancos, especialmente em CDBs ou investimentos de renda fixa, podem esconder riscos elevados. No caso do Master, a atração vinha justamente pela promessa de retornos acima da média, mas com lastro duvidoso. Para quem planta ou investe no agro, esse alerta reforça a necessidade de cautela na escolha de instituições financeiras e de diversificação de risco em sua carteira de investimentos.

Diante desse cenário, fica a reflexão: a promessa de lucros fáceis e a retórica da sustentabilidade não podem substituir a análise rigorosa de conformidade. Para o produtor rural e o investidor do agro, a lição é clara: a diversificação de risco e a escolha de instituições com governança sólida são fundamentais. É essencial desconfiar de retornos muito acima da média e verificar pessoalmente a idoneidade de projetos ambientais, garantindo que o ativo possua respaldo legal e fundiário legítimo antes de comprometer o futuro da produção.

 

Referências:

AGÊNCIA BRASIL. Fim do Master: trabalhadores e 12 milhões de clientes serão afetados. 2025. Disponível em: <https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2025-11/fim-do-master-trabalhadores-e-12-milhoes-de-clientes-serao-afetado>. Acesso em: 27 nov. 2025

 

BBC NEWS BRASIL. 'Todos vamos pagar um pouco do prejuízo do caso Master', diz economista. 2025. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/articles/cn7ky76ej1jo>. Acesso em: 27 nov. 2025

 

BRASIL. Ministério da Justiça e Segurança Pública. Greenwashing: entenda o que é e aprenda a se defender de propagandas falsas. Brasília, DF, 2023. Disponível em: <https://www.gov.br/mj/pt-br/assuntos/noticias/greenwashing-entenda-o-que-e-e-aprenda-a-se-defender-de-propagandas-falsas>. Acesso em: 31 jan. 2026.

 

CNN BRASIL. Banco Master tinha R$ 4 milhões em caixa antes da liquidação, diz BC. São Paulo, 2026. Disponível em: <https://www.cnnbrasil.com.br/politica/banco-master-tinha-r-4-milhoes-em-caixa-antes-da-liquidacao-diz-bc/>. Acesso em: 31 jan. 2026.

 

GAZETA DO POVO. Caso Master expõe crise no mercado de crédito de carbono e aposta na política climática de Lula. Curitiba, 2026. Disponível em: <https://www.gazetadopovo.com.br/economia/master-crise-mercado-credito-carbono-aposta-politica-climatica-lula/>. Acesso em: 31 jan. 2026.

 

INCRA. Incra vetou projeto irregular de extração de crédito de carbono do Banco Master. Brasília, DF: Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, 2026. Disponível em: <https://www.gov.br/incra/pt-br/assuntos/noticias/incra-vetou-projeto-irregular-de-extracao-de-credito-de-carbono-do-banco-master>. Acesso em: 31 jan. 2026.


MARIANA Grilli: Incra vetou projeto de carbono do Banco Master. In: Jovem Pan News. [S. l.], 23 jan. 2026. 1 vídeo (2 min 37 s). Publicado pelo canal Jovem Pan News. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=lJhyMi73Jcs>. Acesso em: 31 jan. 2026.