Fevereiro, 2026
O acordo entre o Mercosul e a União Europeia é fruto de um longo processo que envolveu mais de 25 anos de negociações. Durante décadas, os dois blocos buscaram alinhar interesses complexos até que, em dezembro de 2024, alcançaram um acordo político formal. Esse esforço culminou na assinatura oficial do Acordo de Parceria e do Acordo de Comércio Provisório em 17 de janeiro de 2026. Apesar de assinado, o acordo ainda vivencia uma "reta final" de tramitação, pois precisa ser ratificado pelo Parlamento Europeu e pelos Congressos Nacionais dos países do Mercosul para que possa entrar em vigor definitivamente (G1, 2026).
“Juntos, os 31 países do Acordo Mercosul-União Europeia representam aproximadamente 720 milhões de cidadãos. Nosso PIB combinado ultrapassa US$ 22 trilhões. O acordo ampliará o acesso recíproco a mercados estratégicos por meio de regras claras, previsíveis e equilibradas. Ao remover barreiras comerciais e estabelecer padrões regulatórios comuns, o investimento, as exportações e as cadeias de valor se expandirão em ambos os lados do Atlântico.”, destacou o Governo Federal.
As dinâmicas comerciais entre os blocos são altamente complementares, mas apresentam assimetrias claras, segundo a Rede de Pesquisa e Educação da UE sobre a Europa no Mundo (EU RENEW): 86,6% das exportações europeias para o Mercosul são compostas por bens manufaturados (como maquinário e produtos farmacêuticos), enquanto 81,3% das exportações do Mercosul são de produtos primários (como soja, carne e minérios).
Geopoliticamente, o acordo ganhou força recentemente devido à necessidade européia de diversificar seus mercados e reduzir sua dependência da China, especialmente na importação de minerais críticos essenciais para a transição energética e a indústria de tecnologia, como o lítio, o grafite e o nióbio, que são abundantes no Brasil e na Argentina (THE GUARDIAN, 2026).
No entanto, mesmo que os textos já estejam assinados, a resistência interna é o fator determinante para o acordo ainda não estar em plena execução. A oposição mais conflitante vem do setor agrícola europeu. Agricultores na França, Polônia, Grécia e Bélgica realizaram protestos massivos, bloqueando estradas pelo temor de que a concorrência com os produtos sul-americanos "destrua a agricultura" local (THE GUARDIAN, 2026).
O presidente francês Emmanuel Macron tem sido uma das vozes mais críticas ao acordo devido a essas pressões domésticas. Além disso, ambientalistas criticam duramente o tratado. Organizações alegam que o acordo é um greenwashing (agenda ambiental enganosa) que impulsionará o desmatamento na Amazônia para dar lugar à expansão da soja e da pecuária, além de aumentar as emissões globais de carbono devido ao incentivo ao comércio intensivo.
Por outro lado, o acordo prevê a queda de barreiras comerciais que trarão vantagens monumentais. De acordo com um mapeamento da ApexBrasil (2026), já há 543 oportunidades de desgravação tarifária imediata em 25 países europeus para setores como alimentos, bebidas, agronegócio, máquinas e produtos químicos.
O tratado também fortalece o multilateralismo contra o isolacionismo econômico, moderniza regulamentações, atrai novos investimentos com regras previsíveis e cria a oportunidade de inserir a indústria do Mercosul em cadeias globais de maior valor agregado (EUROPEAN COMMISSION, 2026).
De modo geral, com a abertura dos mercados, o comércio sempre beneficia os setores que utilizam de forma intensiva os recursos mais abundantes de um país. O Brasil possui terras vastas e capacidade produtiva incomparável no agronegócio. Com a entrada em vigor do acordo, as barreiras tarifárias que sempre encareceram seus produtos na Europa tendem a cair, proporcionando maior competitividade e acesso direto a um dos mercados com maior poder aquisitivo do mundo.
Entretanto, esses mesmos benefícios estão atrelados a uma forte exigência: a sustentabilidade e a conformidade. A Europa, pressionada por seus próprios agricultores e ambientalistas, impôs cláusulas rigorosas relacionadas ao cumprimento do Acordo de Paris e controle de desmatamento. No lado do produtor, o Acordo Mercosul-UE é a sua maior janela de oportunidades das últimas décadas, principalmente, àqueles que investem em boas práticas agrícolas, inovação, rastreabilidade e respeito às normas ambientais.
A resistência europeia existe justamente por temerem a força brasileira. Por isso, todo o preparo, modernização e adaptação às normativas sanitárias internacionais devem ser válidos. Afinal, o mercado europeu precisará dos seus produtos, e estar preparado para essa transição ditará quem vai liderar as exportações brasileiras no futuro próximo.
APEXBRASIL. Estudo de oportunidades: Acordo Mercosul – União Europeia 2026. Brasília, DF: ApexBrasil, 2026. Disponível em: <https://apexbrasil.com.br/content/apexbrasil/br/pt/solucoes/inteligencia/estudos-e-publicacoes/estudos-especiais/estudo-de-oportunidades-acordo-mercosul---uniao-europeia-2026.html>. Acesso em: 20 fev. 2026.
BRASIL. Presidência da República. The Mercosur–EU agreement is multilateralism’s response to isolation. Brasília, DF: Planalto, 2026. Disponível em: <https://www.gov.br/planalto/en/follow-the-government/articles/the-mercosur2013eu-agreement-is-multilateralism2019s-response-to-isolation>. Acesso em: 20 fev. 2026.
EUROPEAN COMMISSION. EU-Mercosur Agreement. Brussels: DG Trade, [2026]. Disponível em: <https://policy.trade.ec.europa.eu/eu-trade-relationships-country-and-region/countries-and-regions/mercosur/eu-mercosur-agreement_en>. Acesso em: 20 fev. 2026.
G1. Lula se reúne com Macron em reta final de ratificação do acordo Mercosul-UE; país europeu resiste. Brasília, DF: G1, 19 fev. 2026. Disponível em: <https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/02/19/lula-se-reune-com-macron-em-reta-final-de-ratificacao-do-acordo-mercosul-ue-pais-europeu-resiste.ghtml>. Acesso em: 20 fev. 2026.
GRAHAM-HARRISON, Emma; RANKIN, Jennifer. EU states back controversial Mercosur deal with Latin American countries. The Guardian, 9 jan. 2026. Disponível em: <https://www.theguardian.com/world/2026/jan/09/eu-states-back-controversial-mercosur-deal-with-latin-american-countries>. Acesso em: 20 fev. 2026.
RENEW. Greening or greenwashing? The EU-Mercosur Agreement at a crossroads. [S. l.]: EU-RENEW, 2026. Disponível em: <https://eu-renew.eu/greening-or-greenwashing-the-eu-mercosur-agreement-at-a-crossroads/>. Acesso em: 20 fev. 2026.